Resenha: Caminhando entre Espinhos - Elizabeth Bezerra

Título: Caminhando entre Espinhos - Série New York, Vol. 8.1
Autor (a): Elizabeth Bezerra
Editora: BEZZ
Edição: 2017
Nº de páginas: 147

*Resenha feita pela colaboradora: Renata Thomaz.

Sinopse: Era uma vez uma garota...Que acreditava nas pessoas, na beleza da vida e em um amor puro e bonito. 


Era uma vez uma garota...

Que descobriu que pessoas são ruins. Que o mundo em que vive é cheio de maldade e de dor. 

Era uma vez uma garota...
Presa em uma torre alta, por um homem horrível e cruel. 
Era uma vez uma garota...
Que deixou de acreditar em sonhos, contos de fadas e que príncipes encantados existem. 
Era uma vez uma garota...
Que pulava entre as nuvens. 
Agora... essa garota caminha entre espinhos.


Mais uma vez, uma história que nos traz algumas verdades escondidas no dia a dia de muitas mulheres brasileiras e até de outros países em iguais condições ao Brasil.

Vamos viajar no mundo de Fabiana?



Então, essa não é apenas mais uma história daquelas que há uma sofredora e um cara salvador... Não. Essa foi uma história que me emocionei e me surpreendi demais. Conheci um lado triste da vida, para quem não tem muitas oportunidades mesmo lutando, estudando e se empenhando ao máximo para ter dignidade, para manter-se viva, para manter a família, sendo mulher, filha e negra, morando na favela, saindo bem cedo de casa para enfrentar o batente e, nos finais de semana ou dias em que o sol mostra sua linda face, para ganhar um extra tão bem vindo. Mas, você pergunta: isso não é mais um clichê? Te respondo: não. É forte, intenso e.... Bem, sente-se um pouco que vou lhe contar.

Fabiana, menina criada por mãe solteira, sem pai, mora na favela Morro do Juarez e trabalha em um hotel de luxo como camareira. Aprendeu desde cedo que, para sobreviver, tem que matar um leão cada dia.

“[...] – Excluindo os gastos com a passagem e os ingredientes que iria usar, ainda assim teria 50 reais a mais do que precisávamos para comprar os remédios de minha mãe.”

Morar numa favela, é ver no dia a dia situações difíceis e ter que fechar os olhos para fatos que se contrapõem com o certo. Muitas vezes, o que vemos são pessoas idôneas que sofrem com as maldades de seres que entram para o crime, porque não tiveram perspectivas de vida e aprenderam desde cedo que o modo mais fácil de ter o que querem, que os mais afortunados têm, é entrando para essa vida. 

“Betinho e eu tínhamos estudado juntos até a quarta série. ... ele entrou de vez nessa vida criminosa. Com a mãe viciada e o irmão pequeno para cuidar, foi o único caminho que viu.”

Trabalhar quando você é pobre e mora na favela, mas possui a cabeça no lugar e luta por seus ideais, muitas vezes pode causar inveja e ódio nas pessoas, também, ainda mais se chamar a atenção de alguém que se sente superior a você. Há ainda o próprio ambiente de trabalho em que algumas relações de convívio se tornam complicadas de serem mantidas, e mesmo que haja empatia para conquistar as pessoas, existe o lado cruel de todo ser humano. Essa visão é marcante no texto de Elizabeth, que envereda a trama e leva Fabiana para a parte mais forte de toda a história.

“Má sorte. Karma. Azar. Não sei se essas coisas realmente existiam, mas desde o encontro trágico com Caveira, parecia que a minha vida vinha desmoronando.”

Em horas como essa em que você se encontra desprevenido para o lado da maldade alheia, é que aparecem os rasgos do destino e, às vezes, ele nos mostra facilidades que, lá na frente, vemos que não são tão fáceis assim, entretanto, os percalços da vida nos cegam e tornam essas facilidades a única saída.

“[...] – Você não vai precisar disso – Klauss arrancou o cartão de minhas mãos, amassou e jogou pela porta aberta. A bola de papel caiu sobre a grama.”

Fabiana se viu perdida e numa enrascada que jamais poderia entender. Fora ludibriada, enganada e teve suas esperanças cortadas em plena juventude, sem a chance de conquistar novos degraus. Mesmo assim, não desistiu de lutar, não se deixou abater, ganhou forças para prosseguir de cabeça erguida todos os dias. Mesmo estando longe de sua casa, de sua mãe e das pessoas que tanto amava, ela não desistiria e voltaria.

“[...] – Eu tenho que sair daqui – sussurrei deslizando contra a porta fechada. – Eu tenho que sair daqui.”

Em meio a tantas fugas e desesperos, ela encontra um meio de tornar-se mais forte, mesmo perdendo todas as batalhas pela sua dignidade. 

Elizabeth Bezerra me surpreendeu mais uma vez com sua pesquisa bem feita sobre o submundo criminoso do tráfico, que não se restringe as drogas e nos mostra a fatia crua da maldade que, muitas vezes, a sociedade fecha os olhos e as autoridades fingem desconhecer. E a autora retrata muito bem a luta de uma pessoa sem recursos e que tem vida correndo nas veias para lutar todos os dias.

Recomendo para pessoas acima dos 18 anos, para famílias que devem orientar seus filhos muito bem para as entrelinhas de chamariscos e propagandas perfeitas para negócios escusos. De fácil leitura e muito envolvente.

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