Resenha: A Insustentável Leveza do Ser - Milan Kunder

Título: A Insustentável Leveza do Ser
Autora: Milan Kundera
Edição: 1986 — Edição Grandes Sucessos da Literatura Internacional.
Nº de Páginas: 318
Editora: RioGráfica.


Sinopse: “Os tchecos só têm uma história, ela terminará um dia como terminará a vida de Tomas, sem que seja possível repeti-la uma segunda vez.” A partir da vida de suas quatro personagens principais, a ação deste romance acompanha a história recente da Tcheco-Eslováquia. Tomas, médico de Praga que passa boa parte do tempo flertando com as mulheres sem jamais se envolver com nenhuma. Tereza, garçonete de uma cidadezinha do interior, buscando, nos espelhos, descobrir sua alma. A pintora Sabina e seu inseparável chapéu-coco. E Franz, professor universitário suíço que tem uma “fraqueza por todas as Revoluções”.
Nos erros e acertos, alegrias e tristezas de cada um dos protagonistas, Milan Kundera desenvolve uma aguda reflexão sobre a condição humana, contra as certezas pré-fabricadas da ideologias.


*Resenha feita por Renata Thomaz.

Amigos, essa obra é uma história intensa de dois casais que vivem uma época de revolução de formas e aspectos que diagnostica como uma sociedade atravessa períodos de conflitos, como suas vidas se modificam e se transformam perante as tomadas políticas dos governos e a entrada no mundo comunista, quebrando totalmente o dia a dia dos habitantes do país.


O livro é dividido em sete partes, cujas histórias falam em separado dos casais promovendo uma linha de pensamento sobre como cada um vive o momento antes, durante e após consumação da revolução e tomada do poder pela União Soviética.

A Primeira parte – A Leveza e o Peso:

“O mito do eterno retorno nos diz, por negação, que a vida que vai desaparecer de uma vez por todas, e que não mais voltará, é semelhante a uma sombra, que ela é sem peso, que está morta desde hoje, e que, por mais atroz, mas bela, mas esplendida que seja , essa beleza, esse horror, esse esplendor, não tem o menor sentido. [...] No mundo do eterno retorno, cada gesto carrega o peso de uma insustentável leveza.”

Tomas e Tereza são, em separado, o início dessa deslumbrante trama que remete ao início de um período conturbado na Tcheco-Eslováquia, na pré-revolução, onde todos os paradigmas são remetidos aos períodos de outras revoluções e comparados a segunda guerra. No meio dessa intensidade, Milan Kundera coloca um romance em um contexto político e sociológico para refletir sobre peso, leveza e a lei do retorno, questionando justamente se existe essa característica em todas as revoluções.

Tomas é médico na cidade de Praga, vive só, não quer compromisso, vem de um casamento falido, com um filho que era usado por sua esposa para ganhar sempre mais o que pudesse, tentando demarcar espaço nos pensamentos do filho, porém sem grande conquista por ser uma criança e conviver mais com a mãe.

Tereza, por sua vez, é uma garçonete de uma cidade pequena fora de Praga, na Boêmia, uma mulher de vida simples e com sonhos. Ela encanta Tomas com sua delicadeza e carinhos. Apenas uma noite para os dois.

“É preciso observar a regra de três. [...] Esse sistema dava a Tomas a possibilidade de nunca romper com suas amantes[...].”

Tomas, uma mente livre, tinha tato no tratamento com as mulheres, algo com que se gabava com os amigos. Ele viveu um amor de forma livre, sem casamento, sem responsabilidades, sem união, apenas está presente quando lhe fazia bem, mesmo tendo filho. 

A Segunda parte – A Alma e o Corpo:

A dualidade dos pensamentos entre o amor e viver uma vida leve na poesia da palavra, na música dos ventos, na realidade de uma nova maneira de estar junto, Tomas conhece Sabina, uma mulher de pensamentos livres e de encantos selvagens. Começa então, um triângulo amoroso, sem que uma saiba da existência da outra neste momento.

“[...] Teresa nasceu, portanto, de uma situação que revela brutalmente a irreconciliável dualidade do corpo e da alma, essa experiência humana fundamental.”

Teresa logo que se ambientou em Praga, procurou um curso, fez fotografia, gostava de registrar tudo e todos com os eventos marcantes de sua época, tinha uma mente politizada, vivia as consequências da Revolução. Então, Tomas decide que Zurique era o melhor local para morar, para trabalhar como médico, e conhecera Sabina, uma mulher fascinante, despojada, totalmente o oposto de Tereza. Duas mulheres que mantinha seu coração aquecido.

Tomas não contava que as duas pudessem se conhecer e pudessem ter um relacionamento tão próximo, tão intimo. E forma-se então o triangulo amoroso mais infame da época.

“Acho que Sabina também sentia o encanto insólito dessa situação em que tinha diante de si a mulher de seu amante, estranhamente dócil e tímida. Apoiou duas ou três vezes o botão da máquina, e depois, como que amedrontada com esse encantamento, e para dissipá-lo [...] riu alto. [...] Tereza fez a mesma coisa, [...].”

Foi então que tudo mudou. O abandono, o vazio, a fuga, o medo, a vontade de servir a seu país, tudo novo e diferente. Agora Tcheco-Eslováquia pertencia a União Soviética, e Tereza acompanhava tudo por jornais. A Suíça não era sua casa, seus amigos, sua necessidade; Tomas não vivia só para ela, sua vida estava apenas corpo. E a alma?

Voltemos, então, a Praga: fugir é o melhor caminho, nada insólito e totalmente de acordo quando se tem a mesma língua, o povo conhecido, o coração latente.

A Terceira parte – As Palavras Incompreendidas:

Através da linguagem do corpo, alguns objetos assumem papel importante para as pessoas em determinando momento de suas vidas.

Sabina e seu chapéu coco traduzem as figuras de linguagens que trazem grandes significados entre ela e Tomas (seu amante), mas com Franz, seu real namorado, que só traduzem mal-entendidos.

Nesse jogo de linguagens, algumas palavras são inseridas por Milan Kundera, traduzindo o caos que o ser apaixonado impõe a si quando não é correspondido. 

““Gostaria de fazer amor com você em meu atelier como se fosse no palco de um teatro.” [...] Ela pensava que havia um meio de escapar da condenação que percebia nas infidelidades de Tomas [...].

A Quarta parte – Corpo e Alma:

Agora as vidas se separam, o corpo e a alma libertam-se para viver novas aventuras.

Passado e presente, misturam-se seus momentos e indicam novas possibilidades ao ser. Torna-se leve, sustentável.

Tereza já não suporta mais a condição de oficial com várias amantes. Dizer que não se importa, que não tem ciúmes, que não há problemas, para nenhuma mulher essa condição é viável.

Começam então novas aventuras. Entra em cena o homem alto (Grandalhão), engenheiro. E mais uma vez, Milan Kundera, nos prende num novo paradigma, que é surpreender-se ao encontrar outro que te faça se sentir sublime.

“Ele desabotoou o primeiro botão da sua blusa e fez-lhe um gesto para que ela desabotoasse os outros. Não obedeceu. Tinha mandado seu corpo para longe, e não queria nenhuma responsabilidade por ele.”

A Quinta parte – A Leveza e o Peso:

A profundidade desse livro e, demonstrada no filme também, diga-se de passagem, cumpre exatamente sua a proposta: investigar o quanto o Governo Comunista foi desumano ao implantar seu sistema, sua forma de governar. Neste caso, a personagem principal, Tomas, junto à Tereza, mesmo os dois estando longe um do outro, olham sob a visão do mesmo pensador “Édipo de Sófocles” assim como os julgados ditam que “não sabiam” e/ou “acreditaram no ato covarde”. Édipo furou os olhos por não saber de todo mal que provocara, mas se sente culpado mesmo assim por tudo que aconteceu.

“[...] Os comunistas acharam uma boa desculpa: Stalin os enganou. O assassino se desculpa dizendo que a mãe não o amava e por isso ele se sentia frustrado.”

A Sexta parte – A Grande Marcha:

O questionamento é o quanto a guerra pode destruir vidas de forma fútil. Em uma visão ampla, as conquistas por guerra tornam ácidas as pessoas. Vidas ceifadas por guerra torna fria a sociedade do país que a viveu.

“[...] O filho de Stalin perdeu a vida por merda. Mas morrer por merda não é morrer de modo absurdo. [...] Os alemães que sacrificaram a vida para ampliar seu império em direção ao leste, morreram por uma tolice, [...] e a morte deles é destituída de sentido [...].”

Milan questiona todo regime comunista e seu sentido, nunca deixando o contexto de Tomas, agora com seu filho já crescido, por terra, através da publicação de um artigo. Há uma reviravolta na região que começa a questionar o quanto toda a reforma política e social implantada não diminui a condição humana.

A Sétima parte – O Sorriso de Karenin:

Por fim, os anos de juventude passaram, resta agora viver as lembranças, algumas tristes, outras insuportáveis, outras felizes e amenas. Tereza e Tomas, ainda juntos, confortam seu cachorro, cada um preso a seus pensamentos, solitários. Já não são mais procurados e investigados pelo governo. Ela já não sofre a dor da traição, das várias amantes, deixou-o livre para amar e ser amada.

[...] O que significa ser transformado em lebre? Significa que a força foi esquecida. Significa que dali por diante um não é mais forte do que o outro.”

Fabuloso entrar no mundo de um pensador político. Deslumbrada é a palavra para esse livro, que nos remete a reflexão de o quanto a nossa vida política interfere no nosso modo de viver, pensar e agir.

Esse livro, bem como o filme, merece cinco estrelas com louvor porque nos coloca de frente ao espelho, mostrando todas as nossas fraquezas e procura fazer a gente pensar sobre elas e a tomar decisões.

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