Resenha: Razão e Sensibilidade - Jane Austen

Título: Razão e Sensibilidade
Autora: Jane Austen
Edição: 2012
Nº de Páginas: 453
Editora: Martin Claret

*Resenha feita por Renata Thomaz.


Sinopse: Este foi o primeiro romance de Jane Austen. Publicado em 1811, logo recebeu reconhecimento do público. Razão e Sensibilidade é um livro em que as irmãs Elinor e Marianne representam uma dualidade, de maneira alternada, ao longo da narrativa. As expectativas vividas pelas duas com a perda, o amor e a esperança, nos aponta para um excelente panorama da vida das mulheres de sua época. As irmãs vivem em uma sociedade rígida, ambas tentam sobreviver a esse mundo cheio de regras e injustiças. Tanto a sensível, sensata Elinor como a romântica, impetuosa Marianne se veem fadadas a aceitar um destino infeliz por não possuírem fortuna nem influências, obrigadas a viver em um mundo dominado por dinheiro e interesse. As duas personagens passam por um processo intenso de aprendizagem, mesclando a razão com os sentimentos em busca por um final feliz.

Século XIX. Londres. Uma sociedade marcada pelo machismo, em que, desde pequena, as senhoritas, principalmente, as de famílias nobres e/ou bem abastadas, aprendiam a serem prendas, deviam ter bons dotes, além de conhecimentos de cantos, poesias, bordados, como gerir uma casa, ser devota ao pai e depois ao marido. Assim, temos duas protagonistas que representam muito bem esta situação da época. 

Elinor é uma jovem centrada e calma, bastante responsável, unida a família em torno de um bem comum. Após a morte de seu pai, torna-se a conselheira da família, substituindo por vezes o papel de sua mãe, que era totalmente dependente das ideias de seu marido, o Sr. Dashwood.

Acontece que, a família, após a morte do Sr. Dashwood, necessitou encontrar outro local para viver, visto que a casa seria entregue ao filho mais velho, John, pertencente a família do primeiro casamento. E mesmo com uma jura em seu leito de morte, este filho não cumpre o prometido ao pai, desfazendo todo e qualquer o trato quanto a garantia da Sra. Dashwood e suas filhas Elinor, Marianne e Margaret. 

Após ouvir sua mãe e se inteirar das reais intenções de sua cunhada, Fanny, sem falar do desprezo desta para com ela, suas irmãs e mãe, Elinor aceita o convite de Lady Middleton em ir morar no chalé de sua propriedade, resolvendo todos os pormenores com relação aos criados e possíveis gastos com a nova mudança, para deleite do irmão e cunhada em ver a derrogada das Dashwwod.

Uma família antes feliz, abastecida com toda a pompa que a sociedade patriarcal rica exigia, com criados e bastantes quartos para abrigá-los e suas eventuais visitas, se ver morando agora em um chalé simples, acolhidas pela caridade e amizade Lady Middleton. E mesmo não tendo mais todo o luxo de antes, continuariam felizes, unidas e acarinhadas pelas pessoas conhecidas, como os Brandon's, donos do chalé pertencente ao coronel viúvo.

– Devonshire! Estão mesmo indo para lá? É tão longe daqui! E para que lugar de lá? ...
– Não passa de um Chalé – prosseguiu ela –, mas espero poder receber muitos dos meus amigos.”

Neste ínterim, Elinor conhece Edward, irmão de Fanny, e começam, então, a se aproximarem. Mas, Edward, preso a sua mãe, vive do ócio familiar, não possui ocupação, muito menos idade suficiente para tomar as rédeas de sua vida, tendo, assim, obrigações para com sua mãe e irmãs, a quem ele faz tudo tudo para agradá-las, mesmo que isso não esteja de acordo com seus critérios e desejos.

Agora instaladas no chalé dos Brandon’s, Marianne passa a ser corteja pelo Coronel viúvo, Brandon, que se encanta pela jovem que, romântica e espirituosa, não enxerga nele alguém por quem possa se apaixonar, visto que a diferença de idade e os gostos do coronel não combinam em nada com os dela.


“– [...] O Coronel Brandon é, sem dúvida, mais jovem que a Sra. Jennings, mas tem idade para ser meu pai; e, se alguma vez já foi animado o bastante para se apaixonar, deve ter sobrevivido a toda sensação deste tipo. É ridículo demais!”

Ao contrário de Marianne que é tímida, Elinor é comedida, uma moça que, através da sua frieza, esconde seus verdadeiros sentimentos para não demonstrar seu enorme desejo em ter Edward em sua vida.


“– [...] E Elinor, ao deixar Norland e Edward, não chorou como eu. Ainda agora, o seu autocontrole é o mesmo. Quando será que ela fica desalentada ou melancólica? Quando tenta evitar companhia ou parece agitada e insatisfeita quando não está só?”

Uma leitura romântica e carismática, de duas pessoas totalmente diferentes como as irmãs que estão em idade de casar-se, mas veem-se no dilema de estar fora dos circuitos dos bailes e não terem mais a vida que tinham quando o pai estava vivo, perdendo suas posses e também o prestígio social.

Com o espírito livre, Marianne começa sua aventura de passeios por Barton Park junto a sua irmã mais nova, Margaret, e é numa dessas saídas que, ao sofrer um acidente, ela conhece Willoughby, um rapaz de uma extraordinária beleza masculina que encanta a moça.


– Willoughby! – exclamou Sir John. – O quê? Ele na região? Eis uma boa notícia. [...] 

– Conhece-o, então – disse a Sra. Dashwood. 

– Se o conheço! Claro que sim. [...] Um tiro certo, e não há cavalheiro mais ousado que ele na Inglaterra.”


Então, os encantos começam e surge uma avassaladora amizade e carinho entre Marianne e Willoughby. Juntos, leêm, declamam, ela toca piano para ele, caminham por toda Barton Park e são vistos em todos os locais. De tão íntimos trocam até o corte de um cacho dourado. Mas, começam os circuitos de bailes e Willoughby é chamado por sua família, afastando-se de todos, pois sua mãe exige sua presença de imediato. Marianne, então, que se encontra totalmente tomada pela paixão, descobre que o real sumiço foi por imposição de sua mãe que determinou quem seria sua nora. Afinal, os dotes eram realmente a mola que impulsionava os negócios para a “nobreza”, em que a maioria vivia da comercialização dos casamentos e das rendas anuais que este podia proporcionar.

A pobre Marianne encontrou em sua irmã Elinor e sua Mãe a cumplicidade necessária. E mais uma vez Elinor, com todo seu discernimento, interpõe-se diante as necessidades da família e, sabendo do carinho que o coronel Brandon tinha por sua irmã, apressou-se em montar um cortejo que salvasse a reputação de sua irmã terrivelmente abalada pelo sumiço inexplicável do rapaz.

Um livro que demonstra duas faces bastante importantes da mulher do século XIX. A primeira que é a firmeza da mulher ser a dona da casa, ditar às ordens da família. A segunda, por apresentarem todas as prendas domésticas e sutilezas inerentes à feminilidade, o dom de reverter a seu favor as situações inusitadas. E, por fim, mas tão ou mais importante, a inteligência de Elinor e sua firmeza ao fazer a família unir-se mais ainda, trazendo todos a favor deles para as adversidades encontradas depois da morte do pai. 

Alguns ensinamentos antigos nesse livro fez-me lembrar dos meus pais na infância: o ouvir mais, enxergar mais e, se possível, não falar, mas, se precisar, fale com toda autoridade dos fatos, sendo o mais imparcial possível.

Outro ponto positivo da obra, são os traços de uma sociedade conservadora, de costumes arraigados e totalmente machista, que impõe as mulheres como manter-se numa posição social em que o dinheiro e títulos de nobreza comandam as relações pessoais, princialmente, quando se está diante a perda do pai, o mantenedor da família.

A tradução da obra foi feita com todo o cuidado necessário, sendo o enredo narrado em primeira pessoa e com uma descrição rica em detalhes, em especial aos lugares da época, vestimentas, costumes, o que rebuscaram a escrita e, de certa forma, tornou a leitura um pouco cansativa.

No que se refere aos personagens, gostei muito da determinação de Elinor, da forma como ela se continha em relação aos sentimentos para com Edward, e até mesmo com sua família, ao demonstrar-se imparcial em algumas situações. Embora seja perceptível ser essa uma forma de proteger sua dignidade e orgulho, ainda mais para uma jovem que estava passando da hora de casar.

Marianne, é uma personagem que encanta pela sua força de apaixonar-se pela vida, pelo seu eterno romantismo, uma menina voluntariosa que impõe seu querer, que demonstra todo seu amor a Willoughby, um rapaz sustentado pela família e que deve satisfações e obediência a sua mãe.

O Coronel Brandon que, por ter toda a experiência nata da idade, resguarda seu amor e facilita por muitas vezes a vida da doce Marianne. Por sua dedicação a ela, mantém a reputação da mesma que ficou despedaçada devido ao rompimento com Willoughby.

Os pontos fracos da narrativa foram os discursos longos, que tornaram a leitura cansativa, inclusive nos primeiros capítulos, em que, para que se possa entender o que se passa na sociedade da época, é necessário vencer a monotonia da escrita para compreender a história. 

No geral, é uma obra muito boa, repleta de informações, principalmente sobre a sociedade londrina e as relações interpessoais, o papel da mulher nesse meio, assim como a função do homem como o provedor da família.

Recomendo a leitura, afinal estamos falando nada mais, nada menos que Jane Austen.


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